quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A professora de sensibilidades por Celso Antunes

Lindo texto que nos leva  a refletir sobre a nossas atitudes diante dos nossos alunos, indico essa leitura à você!!!


A professora de sensibilidades

Nicole ministra aulas em uma escola pública no período matutino e à tarde trabalhava como secretária em uma escola particular. É professora de Língua Portuguesa e por força de seu ofício ama as palavras e coleciona sentenças. Em suas aulas, nos recados que jamais esquece de deixar na prova de seus alunos e até mesmo nos singelos avisos que anotava para si mesmo ou para o quadro da parede, nunca se limitava a transmitir apenas a informação. Uma regra que jamais deixava de obedecer era da clareza e da objetividade e assim pensava duas vezes em o que escrevia para olhar pelos olhos de possíveis leitores reconhecendo a lucidez da certeza e a síntese na informação. Mas, para Nicole o mais importante em seu papel como mestra e em sua ação como gente era menos a forma e mais a sensibilidade com que a emoldurava. Dizia sempre:
- Habilidade é importante, mas habilidade sem sensibilidade é quase nada.
Nicole tem razão e é uma pena que outros professores não pensem seus pensamentos. Não apenas professores de sua disciplina, mas professores de qualquer disciplina. Estendendo sua opinião a outros contextos, seria certo afirmar que para a Geografia e para a História, para a Matemática e para as Ciências assim como para o estudo das Artes, das Línguas Estrangeiras e outra disciplina mais, existe uma quase obsessiva preocupação dos professores em desenvolver a habilidade, esquecendo-se da sensibilidade.
Habilidade todo professor ensina, mesmo quando não sabe que está ensinando habilidade. Ensinamos habilidades quando ensinamos a ler, interpretar, somar, comparar, medir, justificar, classificar, sintetizar. Ensina-se habilidade quando se informa que foi Pedro Álvares Cabral e não outro quem descobriu o Brasil, quando se diz que a Lua é satélite da Terra e o contrário está errado ou quando se afirma que a água do mar é salgada pelo sal que por bilhões de anos, lentamente, os rios levaram. Assim, habilidades são não apenas conteúdos que se aprende, mas operações que se usa para melhor compreendê-los e para fazer com que se contextualizem na vida que se vive. É inegável que as habilidades são importantes e que escola que não as ensina, não pode ser chamada de escola.
Sensibilidade é diferente de habilidade e nem todas as sensibilidades possíveis se apreende na escola, ainda que para Nicole seja essencial que o ensino das habilidades venha sempre junto com as experiências da sensibilidade.
Sensibilidade é cheirar, tocar, escutar. É ver, degustar. É claro que uma criança que não aprende verbos jamais sabe quando os emprega, ainda que saiba dizê-los. Saber verbos é, por exemplo, conquistar uma habilidade, entre outras tantas que na escola se conquista. Mas, como sempre afirma Nicole, de que vale conjugar um verbo sem sentimento, de que vale memorizar um poema inteiro, guardando-o na memória, mas jamais o dizendo com emoção, pronunciando-o com a alma à flor da pele?
Nicole nunca deixou de materializar os exemplos em que comparava a habilidade com sensibilidade. Escolhia um belo poema de Olavo Bilac, de Castro Alves, Guerra Junqueiro ou Fernando Pessoa e lia-o em voz alta para seus alunos. Mas, sua leitura era fria, distante, dita com voz metálica e pensamento ausente. É claro que raros alunos podiam querer conquistar os versos ditos por Nicole e assim aprender essa habilidade. Mas, logo depois, a professora retornava ao poema e dizia-o outra vez, mas agora com paixão, ardor, intensidade. Fazendo-se o poeta em sua mágoa ou sua alegria, em sua paixão ou seu desencanto.
Os alunos de Nicole, pouco se interessavam com sua primeira leitura. Percebia que versos ditos sem paixão e sentimento é apenas mensagem para se decorar, mas arregalavam os olhos na segunda leitura e não poucas vezes riam ou choravam nas palavras do poeta, interpretados pelo sentimento de sua professora. Reconheciam que habilidade sem sensibilidade é quase nada.
Fonte: http://www.celsoantunes.com.br/pt/textos_exibir.php?tipo=TEXTOS&id=56


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